Outras faces

Este é um anexo da "Face oculta da Lua". Aqui ficam os textos mais longos e o que mais me der vontade. Para voltar à Face, clique aqui. Caso contrário, boa viagem.



Quarta-feira, Janeiro 19, 2005



Fugaz


Ao mesmo tempo em que amava os dias de vento, temia que um dia sua alma fosse levada por ele.
"Que bobagem", diziam-lhe batendo com a mão no ar, "Isso não existe".
Mas ela achava que existia.

***


Andava sozinha numa praia distante que não atraía a atenção de ninguém: as pessoas preferiam ficar nos quiosques à beira-mar ao invés de sujar os pés com areia e água salgada. Mas ela, ela gostava de sentir o mar gelado cutucando a ponta dos dedos e ficar apenas observando os pontinhos de luz lá longe. Andava sem pensar em nada, às vezes contando estrelas, às vezes conversando com a lua, às vezes esperando que qualquer coisa pulasse do mar e a levasse para o fundo antes que ela pudesse reagir ou sentir vontade de ficar.
O que mais a agradava nessas caminhadas era a brisa que bagunçava ela inteira. Os ventos mornos que vinham do oceano lhe causavam imenso prazer, nem ela mesma entendia por quê. Sabia apenas que não havia nada melhor que os cabelos esvoaçando numa sensação atemporal de liberdade.

Dessa vez o ar não estava calmo como de costume: parecia excessivamente brincalhão. Cada pedaço de vento pegava um grão de areia para si e faziam amor num redemoinho que machucava os olhos. Ela protegia o rosto com as mãos deixando que as vestes esvoaçassem com violência; não enxergava a lua, as estrelas ou as luzes distantes; não ouvia o barulho das ondas, apenas os gritos de amor do vento arenoso que a esfolava e fazia bambear a cada passo. Sentiu-se levada pelo vendaval, embora soubesse que os pés estavam bem firmes no chão, e abrindo os olhos o máximo que conseguia viu um eu opaco se desgrudando da pele.
Ensurdecida pelos assovios agressivos, abriu a boca e os olhos de susto e esboçou um grito que não se soltou, sufocado pela areia. Deixou-se cair no chão úmido, esfregou os olhos irritados e tentou em vão agarrar a palidez que ameaçava abandoná-la. Desesperava ao observar seus dedos atravessarem a translucidez sem nenhum efeito e ao perceber que logo toda ela se desprenderia.

Quando apenas os pés estavam ao seu alcance o todo o resto do corpo sobrenatural flutuava, conseguiu agarrar-se: os dedos da mão se entrelaçaram nos do pé diáfano. Tremendo de horror e prazer, ela via seu eu opaco deixar a carne avermelhada. Fitou seu rosto de fantasma, voltado para si com um olhar condescendente, e num deslumbre compreendeu.
Deixou-se escapar por entre os dedos e a tempestade de areia enfureceu. Já cega pelo turbilhão, teve consciência da vista que se embaçava e escurecia, do corpo que desfalecia. Com um riso genuíno viu-se distante, flutuando no caos dos ares, uma brancura cada vez mais plácida e além. Então apagou, e não sentiu, nem viu, nem ouviu mais nada.
Num repente toda a turbulência cessou em sussurros extasiados, os grãos de areia voltando satisfeitos à terra, o vento se acalmando após o momento orgástico. O corpo jazia na areia, machucado e tranqüilo, com os dedos dos pés ao alcance das lambidas das ondas.
No céu estrelado, uma figura alva brilhou num instante e sorriu - ela sempre gostara de sujar os pés com areia e água salgada.

Desvendado às 1:57 AM



Quarta-feira, Novembro 10, 2004

Do adeus às águas já caídas




Apesar do ar quente e sufocado da sala e do mundo, ela sentia a garganta raspar, como se tivesse gritado por três horas seguidas e fumado incontáveis maços de cigarro.
No quase silêncio ela sentia as palavras onduladas do monólogo entrando pelos poros e se auto-assimilando nas entranhas. Quando por fim a voz cessou, desfrutou da calmaria de anjos - já impregnada na rotina uma vez por semana.
Entorpecida pelo calor exagerado, sentindo-se inchada na atmosfera densa, mergulhou na leitura que ela considerava moderna demais para o seu considerável conservadorismo gramatical até ouvir chamarem seu nome. Levantou e andou até o fim da sala passando pelos olhares de cumplicidade compreensiva tão habituais daquele lugar, onde era tudo tão suave e todos sorriam palavras gentis.

Era o último dia daquela etapa e ela recebeu, agradecida, os fluídos que lhe eram necessários. Ao retornar à sala repleta de lugares ocupados voltou mais uma vez os olhos para o emaranhado de letras rosianas.
Antes que o primeiro trovão ressoasse, ela sentiu o cheiro tão agradável da brisa que sacudia as persianas. E então o céu gritou, e se iluminou com um raio comprido e recortado, e as gotas fizeram bagunça no telhado.
Ouviu seu nome mais uma vez, falou com a senhora sorridente de óculos com aros grandes e foi embora. Já na rua olhou para o céu e andou sem pressa até o carro do outro lado da rua. Pouco importava se a garganta reclamasse mais tarde, pois há tempos ela não se molhava um pouco com as chuvas quentes de verão.

Era o término de uma época em que ela estivera desiludida, desamada, desenganada por si própria. Depois de todas as revoltas e incertezas que lhe entupiam a alma terem sido quase totalmente dizimadas, ela finalmente recebia alta do seu eu doente.
E sentiu-se feliz, porque chovia forte. As ruas inundavam, as rodas do carro esparramavam águas, e aquela tormenta não podia ser apenas acaso. Era como se o mundo se aliviasse com ela, como se todas as divindades lhe dissessem que, agora, tudo estava bem. Era como um marco, uma benção, um abraço, um choro sufocado dos céus. Era trancar com cadeado o arquivo-morto e ganhar de presente um livro em branco.
Como uma permissão para viver de novo - e para errar de novo, se preciso.

Desvendado às 9:22 PM



Quarta-feira, Julho 21, 2004



- Mas é claro que existem anjos! - ele respondeu como se fosse óbvio - Não os vê por todos os lados?
A pequena ergueu os olhos e franziu a testa sem mover a cabeça, como que procurando com desconfiança e receio seres alados cruzando o céu.
- Não. - ela respondeu agora com o rosto voltado para cima, um desapontamento murchando-lhe os lábios.
- Olhe com atenção - o homem agachou ao seu lado e mirou o céu junto com ela - Às vezes é até bom deixar-se distrair. Eles aparecem sempre e quando menos se espera. Olhe um ali! - ele apontou um dedo para o alto.
- Não vi... - os olhinhos brilhantes se agitaram ansiosos.
- Eles passam depressa. São muito apressados, sabe? Muito o que fazer.
A menina balançou a cabeça num sinal de compreensão sem desviar o olhar do céu.
- Mas você conseguirá vê-los. Vai ver só.
Silenciaram e ficaram ali, sentados na grama, atentos ao firmamento repleto de nuvens, enquanto o sol descia até sumir de vista. Quando só restavam os raios alaranjados, o homem percebeu que a pequena havia adormecido em seus braços.
Afastando-lhe os cabelos do rosto, beijou-a na testa e sorriu.
- Dorme, pequena. Quem sabe amanhã...
Erqueu-se com a menina nos braços e empertigou-se. Torceu para que o vento não a acordasse e, movendo as asas com leveza, deixou que os pés se despregassem do chão.

Desvendado às 9:02 PM



Sábado, Maio 15, 2004



Ela disse não, veementemente não, e fim de assunto. Onde já se viu, dizia ela, fazer uma proposta dessas a uma mulher decente? Ninguém que se desse o mínimo de valor, ela bradava com o peito estufado e o dedo apontado para o céu, seria capaz de aceitar uma coisa dessas. Já tinha dito, dizia agora e diria de novo quantas vezes fosse preciso que não e fim de assunto. Ele, pasmo, se encolhia e estremecia diante dos trovejos que ela soltava pela boca e fechava os olhos com medo de que algum raio escapasse daqueles pulmões poderosos e lhe atravessasse as órbitas. Mas por que essa braveza toda se eu só, ele tentava argumentar com a voz falha e fraca, mas ela o interrompia e iniciava novamente o discurso contra a imoralidade fazendo a casa roxa tremer com seus berros indignados.

Abriu a porta da frente e apontou o dedo incisivo para fora expulsando o rapaz e suas palavras injuriosas. Ele foi saindo com a coluna já em forma de arco, mantendo distância da mulher furiosa e se protegendo com as mãos espalmadas na direção dela na a vã esperança de que aquilo fosse protegê-lo dos impropérios que ela insistia em bradar incansavelmente e das bofetadas que ela ameaçava dar-lhe na cara. Ouviu o estrondo da porta batendo atrás de si, encarou-a por alguns segundos sem entender o motivo de tamanha indignação, olhou para o céu que se forrava de nuvens cinzentas, sentiu a primeira gota cair bem na ponta do nariz e disparou em direção à sua casa de tijolos verdes que ficava do outro lado da rua.

Do lado de dentro da porta que quase se partiu tamanha a força com que foi batida, a mulher respirava fundo com uma das mãos no peito como se tivesse acabado de correr uma maratona que atravessava o país e com os olhos tão arregalados que mais parecia um sapo.
Ouviu as gotas começarem a cutucar o telhado e banhar a grama alta do jardim e um trovão gritar no céu concordando com sua raiva como um irmão. Caminhou até a janela da sala para observar o aguaceiro que começava a aumentar e pediu aos céus que a tempestade derrubasse de vez a casa de tijolos verdes do atrevido do outro lado da rua.
Por entre as frestas das portas e janelas que se fechavam com rapidez e afobamento podia-se ver os olhares desgostosos e reprovadores que eram lançados à casa roxa. Era sempre assim, eles pensavam consigo mesmos e resmungavam uns para os outros ao preparar os baldes para as goteiras ou os panos para pôr debaixo das portas, desde que o rapaz atrevido da casa de tijolos verdes tinha se mudado para a vila. Bastava um rebombar agressivo dos tambores no céu que todos se apressavam em fechar a casa sabendo que a mulher da casa roxa estava furiosa, que o rapaz da casa de tijolos verdes estava cabisbaixo e encolhido na cama e que viria mais uma tempestade de treze dias que acabaria com as plantações, com as telhas e com a maior parte do ânimo e bom-humor dos moradores da vila, com exceção da mulher da casa roxa que aparecia sorridente e satisfeita nas janelas que permaneciam sempre abertas já que a água que compartilhava e vinha em nome de sua fúria se recusava a invadir e maltratar aquela habitação.

E então todos se conformavam com a reclusão imposta pelo mau gênio da mulher da casa roxa que se enfurecia sabe-se lá por que motivo com o rapaz da casa de tijolos verdes, esperando passar os treze dias para que o sol voltasse a aparecer receoso permitindo que a rotina voltasse ao normal até haver mais uma daquelas visitas que sempre acabavam em quase dilúvio.

Desvendado às 9:57 PM



Quinta-feira, Abril 22, 2004



Quando for primavera


Empurrou a porta displicentemente ouvindo-a fechar quase sem ruído e jogou as chaves a um canto, distraída. Levou uma mão à testa no mesmo instante sabendo que demoraria horas para encontrá-las no dia seguinte. Era por isso que se atrasava todas as manhãs, e era por isso que precisava perder o costume de lançá-las a um canto qualquer sem prestar atenção.
Estava escuro e o ruído do salto calcando o chão delicadamente ecoou surdo nas paredes sem quadros. Caminhou para o banheiro deixando as chaves e as preocupações perdidas na sala para apanhar no dia seguinte. Tudo o que precisava agora era um banho.

O ar da casa estava menos gélido que o de lá de fora, mas ainda assim ela sentiu os pêlos do braço se eriçarem ao retirar o sobretudo e largá-lo no meio do caminho. As outras peças de roupa também foram deixadas para trás a cada passada formando um rastro quase artístico, característico daquela mulher que tinha mania de largar as coisas em qualquer lugar.
Sem se preocupar em fechar a porta, pois portas estavam sempre abertas em casas de moças solteiras, girou a torneira do chuveiro e postou-se na frente do espelho por alguns instantes. Apoiando os braços sobre a pia, observou o rosto estafado e esfregou os olhos que ardiam de cansaço. Pelo vidro escuro da janela viu folhas passarem voando sob o céu cinza lá fora. Um vento gelado entrou por uma fresta trazendo um arrepio, e somente então ela teve certeza de que era outono. Uma estação tão parecida com ela, que sempre se desprendia das coisas e de quem as coisas sempre se desprendiam. Como as folhas secas que se destacam das árvores.

Mergulhou debaixo das gotas quentes que caíam com força pensando que já estava cansada de ser avulsa. Estava cansada de perder suas folhas e de ser a folha perdida dos outros. Cansada de ser outono. Ela queria ser primavera: sempre renovada. Sempre rodeada de cores, e cheiros, e flores. E pássaros fazendo música, e gente fazendo riso. E amores.
Aos poucos ia sentindo os músculos afrouxarem. Fechou os olhos e voltou o rosto para o jato de água. Mesmo que tivesse alguém ali, seria impossível perceber as lágrimas que lhe fugiam das órbitas. Se fosse primavera, talvez ela não chorasse.
O vapor infestava o banheiro, inundando-a por dentro, e era como se a embriagasse. O ar úmido e quente a deixava atordoada. Enquanto derretia naquele estado onírico, às vezes tinha a impressão de que ia sufocar. Faltava-lhe ar.

O ruído da porta fechando foi o que a fez despertar. Mesmo com a água escorrendo pelo rosto, os olhos embaçados de quem acabou de acordar, a névoa densa de vapor, ela conseguiu divisar a silhueta escura parada junto à porta.
A fragrância inconfundível e as vestes impecáveis se revelaram a tempo de evitar um grito. Ele se aproximou, sem sorriso e sem brilho nos olhos. Ela se envolveu nos próprios braços e encarou o chão forrado de gotículas condensadas. A brisa fria encontrou alguma fissura, fez os corpos estremecerem e, dissipando as nuvens de vapor, permitiu que os olhos se encontrassem.
Ela sabia que as folhas caídas jamais retornavam às suas árvores. Elas se soltavam e vagavam pelos ares até encontrar um lugar querido e seguro para pousar e jazer para sempre. Sem que ninguém precisasse dizer, ambos sabiam disso. Ambos eram outono.

Encararam-se por um momento estático no tempo. O ruído da água batendo no chão, as frestas assoviando com o ar que as driblava teimosamente, as partículas de água brincando com o vento em rodopios. Os olhos tristes, sóbrios, envergonhados, não se moviam. Mantiveram-se fixos num diálogo indecifrável até que, num entendimento mudo, clarearam. Arregalados, surpresos, aliviados, criaram vida num repente, e os ombros tensos relaxaram, e risos discretos brotaram no canto dos lábios, e eles tiveram certeza de finalmente ter encontrado um lugar para pousar.
Com um movimento macio, ele tirou do bolso um molho de chaves. Ela observou o gesto, olhou para as peças de metal tão familiares que tilintavam, e sorriu. Não se atrasaria na próxima manhã.
Sem se importar se as roupas finas se encharcariam, ele mergulhou para junto dela na água quente. Beijavam-se, abraçavam-se e riam ao mesmo tempo, ignorando a brisa gélida que se intensificava como uma provocação. Não sentiam frio.
Era primavera para sempre.

Desvendado às 9:36 PM



Quinta-feira, Janeiro 15, 2004



Sobre meninas e lobos

Descubro tuas artimanhas
antes de ser tarde demais.
És tão esperto, jovem lobo,
mas não me enganas mais.

Tuas sutilezas já me são falsas.
Tuas graciosidades, esparsas.
Tua lábia não mais te disfarça
e teu jogo se faz nítido.
Achas graça?

Pois aviso
que não me conquistam
os gracejos gratuitos.
Flertes baratos, conheço muitos.

Tuas palavras promíscuas
não me interessam.
Deixo-as para as outras.
Para mim, elas cessam.

Mas se queres jogar, estou pronta.
Vamos começar.

Antes que perceba
estarei eu entranhada em teu peito.
Podes negar, desdenhar, disfarçar,
mas um dia há de confessar.
Meu jogo é muito mais bem feito.

Desvendado às 4:36 PM



Segunda-feira, Dezembro 29, 2003



Agitou-se e respirou fundo. Deitada na cama há algum tempo, já notara a alteração das funções. Percebeu que o peito subia e descia em intervalos menores e que o coração aumentava o ritmo das batidas. Piscou e a atenção se desprendeu da televisão.
Revirou o tronco procurando se ajeitar nas almofadas. Tremor imperceptível, frio nas entranhas, podia prever a dilatação das pupilas. Droga, de novo?!
Conhecia essa inquietação que a pegava sempre de surpresa. Que chegava silenciosa e se manifestava sem razão alguma. A ansiedade teimosa e um impulso de fazer qualquer coisa. Sempre à noite, invariavelmente. E não entendia.
Deixou a televisão tocar o programa musical e se levantou. Não encontrava nenhuma posição confortável. Revirou os bolsos do casaco e os dedos nervosos encontraram o maço de cigarro. Abriu a janela do quarto e buscou a lua. Nada. O céu estava denso, repleto de nuvens.
Realmente, ela não compreendia esse sentimento que a tomava de súbito. A droga da inquietação inexplicável. Acendeu o cigarro e a brasa queimando refletiu nos olhos escuros. Quando isso ia parar?
Dessa vez, não era inquietação angustiada. Era inquietação quase positiva. Sentiu vontade de sorrir. Dedos tamborilando no batente da janela, nicotina fazendo efeito.
Cássia Eller e Nando Reis. Relicário. Correu os olhos para a televisão. Gostava daquela música. A vontade de voar. Sim, algumas músicas despertavam a vontade de voar. Fechou os olhos e levantou o rosto para o céu.
"O que está acontecendo?", eles cantavam.
Os lábios crisparam involuntariamente. Ouviu o coração, a repiração. Já estavam agora serenos. Outra música havia começado.
"E a vida que ardia sem explicação."
Concordou com os versos. Não havia explicação. Caminhou até a cama e se deitou novamente. Ajeitou-se de primeira. A agitação passara. Fora só mais um daqueles surtos.
"Não tem explicação...", dizia a canção.
Mas no fundo, ela sabia que tinha.

Desvendado às 11:21 PM



Quinta-feira, Dezembro 18, 2003



Já sou cansada dos meus sonhos,
saturada dos meus anseios.
Que se concretizem os quereres
e sejam reais os devaneios!

Vem sentir comigo
a brisa da noite quente,
vem me dar esse teu sossego.
Me dá teu colo, teu abrigo,
tua inspiração e teu aconchego.

Me deixa desfrutar do teu carinho,
deixa eu sentir bater teu coração sozinho.
Vem, e me enlaça com tua calma.
Me envolve, me encanta
e me abraça a alma.

Vem trocar olhares,
me observar enquanto durmo,
acariciar o meu cabelo,
recitar palavras num sussuro.

Vem dançar sorrindo pras estrelas,
ver a lua subir no céu,
ouvir o vento cantar,
brincar de sonhar,
tentar voar ao léu.

Vem me dar teu peito
e teu riso macio.
Vem me acalentar com tua boca
e preencher nosso vazio.
Me inunda,
e me deixa provar o gosto
da tua acidez sutil.
A noite é longa e bela.
Vem, meu querido,
sem mais um pio.

Desvendado às 7:06 PM



Sexta-feira, Dezembro 12, 2003



E eis aquela inquietação.
Eis aquela aflição.
Toda aquela reviravolta interna,
aquela excitação.

Mãos que procuram,
vontades que anseiam,
o corpo ferve áspero:
os desejos me permeiam.

Os quereres esquecidos
despertam com um lembrar.
Estiveram sempre lá!
Quem poderia imaginar?

A mente se anuvia,
a cobiça arrepia,
e adeus!
Lá se vai a calmaria...

Sentidos?
Ora, que são eles agora?
Eles se perdem,
se encontram,
se misturam.
Simplesmente se descontrolam
e me saturam.

Agitados, não respondem.
Sinto apenas a volúpia
que envolve e invade
meu eu com sede e vontade.

E aqueles olhos que penetram,
Aqueles lábios que se secam,
e é só almejo, almejo, almejo.
Eu quero, ambiciono, desejo.
Ah! Há quanto tempo não te vejo?

Desvendado às 9:12 PM



Domingo, Dezembro 07, 2003

Lembrança




O sol começava a se esconder de leve atrás das montanhas que se erguiam no horizonte. O céu se coloria em tons decrescentes, do amarelo ao púrpura mais delicado, passando por vermelhos, laranjas e lilases.
Era o primeiro pôr do sol do verão e os ares que sopravam já eram frescos, aliviando a sensação de mormaço que os dias ensolarados provocavam. As águas do lago se agitavam imperceptivelmente com a suavidade da brisa que bailava. As árvores baixas que o rodeavam também agitavam as folhas, e a relva de um verde muito claro se movimentava acompanhando as ondulações do ar.
Os jardins do castelo estavam vazios, e nada se movimentava na paisagem serena de fim de tarde. Apenas um observador muito atento poderia ter enxergado o casal que se recostava em uma árvore de tronco largo e copa densa próxima ao lago. Somente suas silhuetas se divisavam na paisagem que começava a escurecer junto com o firmamento.

Marco fitava os últimos raios de sol desaparecem atrás dos montes. Os olhos cor de âmbar estavam vidrados, como que fixados em pensamentos distantes. Encostado no tronco da árvore que ser erguia robusta sobre si, mantinha as pernas esticadas na grama e acolhia entre elas sua menina, que olhava distraída para o céu.
Lídia mantinha os olhos verdes erguidos com atenção. Enquanto morria a última réstia de sol, pontos prateados começaram a despontar no manto escuro da noite. Apareciam aos poucos, com uma luminosidade fraca, mas logo já cintilavam alvas e cobriam todo o firmamento. As constelações se deixavam discernir, e a lua minguante foi aos poucos subindo para o meio delas.
Os braços de Marco a envolviam suavemente e ela se deixava acolher no peito do rapaz. Ambos piscaram ao mesmo tempo, como que despertando de um devaneio remoto. Mantinham os rostos serenos, como a brisa que lhes saudava. Marco baixou os olhos e observou a menina que permanecia com o rosto voltado para o céu.
Ele apertou ligeiramente os braços sentindo Lídia entre eles e respirou fundo sentindo uma calma não habitual invardir-lhe plenamente. Um cheiro doce emanava dos cabelos negros da menina, que soltos alcançavam a cintura. Estar com ela lhe trazia paz. Estar com ela fazia-o esquecer, mesmo que por minutos, todo e qualquer contra-tempo que a vida lhe apresentasse. Ela parecia ser tão frágil, tão indefesa e absolutamente inofensiva, mas era forte. Não era como outra garota qualquer. Ela o surpreendia a cada dia. Um riso sereno crispou no canto dos lábios do menino. O vento se agitou com mais força e o ar soprou morno. Marco recostou a cabeça no tronco da árvore e fechou os olhos.

Ao sentir os braços do menino se apertarem, Lídia encolheu os ombros se aconchegando mais entre eles. Girou a cabeça e fitou o rosto moreno. Ela o amava com todas as suas forças e admirava-o intensamente: sua perspicácia, sua acidez, sua austeridade. Ele era o único que lhe restara e o único com quem realmente se importava. Ele era seu amor, seu mentor, sua perdição.
Os cabelos castanhos caíam-lhe displicentes sobre a testa, e ele abriu os olhos. Encararam-se por instantes, com rostos impassíveis, e ambos sentiram o corpo estremecer e regelar por dentro. Marco sorriu. Lídia sorriu de volta.
Mais que amantes, eles era cúmplices. Compreendiam-se mutuamente, falavam com os olhos, conheciam-se sem precisar proferir palavras. Na maioria das vezes elas eram simplesmente desnecessárias.
Lídia passou a mão nos cabelos do menino. Ele acariciou o rosto claro e, descendo a mão até a nuca, puxou-a para perto de si. Os lábios se encostaram num estalo inaudível e uma guinada repentina de vento fez cabelos e vestes esvoaçarem por alguns segundos.
O casal mergulhou nas sombras em um beijo delicadamente intenso, e a lua já começava a descer para o oeste quando os vultos enlaçados caminharam tranqüilamente para dentro do castelo.

Desvendado às 12:01 AM



Quinta-feira, Dezembro 04, 2003


E era belo, e austero
e raro.
Era perto, embora longe,
e caro.

E era mistério, era intriga,
era calor.
Era paixão, era instiga,
um meio-amor.

Na noite alta, às vezes dia,
conversas,
planos,
jogos,
e ria.

Palavras inteiras e pela metade,
que provocam e convidam e despertam.
Palavras nubladas e distorcíveis,
repleta de intenções que se completam.

E era lá.
Distante e não-modesto,
encantador e bem esperto.
E sincero, e novo,
e maduro, e desperto.
Era cá.

Era mais.
Era mágico, irreal,
loucura desvairada.
Era riso, era canto,
era tudo e era nada.

Era, e é,
e vai ser,
incondicionalmente,
invariavelmente.
Paixão doce, eterna
e surreal,
insana,
pura
e simplesmente.

Desvendado às 1:51 AM



Domingo, Novembro 30, 2003



É claro
que você não pensa em mim.
Se o fizesse,
não seria assim tão displicente.
Se o fizesse,
teria vontade de mim, urgente.

Nas noites de Raul
e de luau,
De vinhos e sarau,
não ficaria tão distante
ou negligente.

Me poupe das desculpas
e adiamentos,
das exigências de
climas e momentos.
Apenas assuma que não pensa.

Ah, que cansaço dos
teus olhos,
Que enjôo dos teus modos!
Que vontade de esquecer,
esmaecer você de mim.

Desvendado às 10:07 PM



Domingo, Novembro 02, 2003



Como pode um ser
tão distante e abstrato
fazer pulsar esse
tolo coração?

Como pode tamanho
encanto
ser despertado por
mera ficção?

Vem, meu cavaleiro esperto,
e me leva
para longe
deste mundo são.

Vem, meu secreto amante,
que vamos cavalgar
apressado
para o nosso insano céu.

Vem rápido, meu pequeno mago!
Vem urgente!

Vamos voar juntos,
com gosto e leveza,
até a deliciosa
fantasia da gente.

Desvendado às 10:34 PM



Sábado, Outubro 18, 2003

Íntim'ação




Cadê teus olhos nessa
noite fria, meu amor?
Cadê teus lábios
a me aquecerem no crepúsculo,
meu querer?

Será que não me desejas,
moço da noite?
Será que não há sequer
um impulso
que te impila aos meus braços?

Diga-me, em verdade,
que não tem sede
do meu gosto,
que não anseia
meu perfume.
Dirija-me teus olhos negros
e afirme bem sincero
- para mim e pra você -
que não deseja sentir
minha pele
ferver entre teus dedos.

Vamos, diga!
Desafio-te.

Será mesmo que não lhe
enlouquece
a simples menção de
nossos corpos
consumindo-se com ardor?

Será mesmo?
Não receie.
Não adie, não minta, não relute.
Permita-se, meu amor!
Se entregue e me possua.

Ou será que é verdade
que não tem
fome de mim?

Desvendado às 9:48 PM



Sexta-feira, Outubro 17, 2003

No Parque do Ibirapuera, a primeira foto tirada, revelada e ampliada por mim.


Desvendado às 9:00 PM




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